Esquecera-se dos seus próprios conselhos. Ficaram em branco as folhas em que escrevera suas próprias palavras. Não encontrou as coisas que cultivou. As raízes foram arrancadas. Nada era recíproco. Nada.
Mas agora, depois de tanta melancolia, o choro se fez riso. E riso bobo, só por se lembrar. Lançam-se novas sementes. A folhas podem começar a serem reutilizadas. Nunca soubera onde levaria suas decisões friamente calculadas. Vivera sempre como joga um jogo de xadrez: prevendo cada movimento, tudo sob controle, sacrificando e salvando algumas peças...
Deixara pra trás suas estratégias de coisas incalculáveis e imprevisíveis; sonhava, apenas. De fechar os olhos e respirar fundo. Do resto, fazia questão de deixar tudo em ordem, mesmo quando nada estava. E do que podia, fazia questão de cuidar pra que fosse como tanto desejava. Para fazer sorrir. Pra mudar.
Várias páginas já haviam sido reescritas. E mesmo que não acreditasse nessas coisas, fez aqueles pedidos, de olhos fechados, sorrindo... boa parte deles já haviam sido realizados.
Pode ser somente um história, ou várias. Minha, sua ou dele. Ou as nossas, misturadas.
Não, eu não deveria estar escrevendo, não a essa hora da madrugada, mas essa dor não me deixa escolha. Eu não poderia estar me importando tanto. Eu também não deveria olhar todos os contatos da minha agenda esperando encontrar algum pra quem eu possa ligar a essa hora. Eu também não deveria imaginar os sorrisos, os abraços, as conversas. Eu não deveria criar momentos em mim mesma, nem questionar ausência. Eu não poderia estar querendo abraços de pessoas que sequer lembram-se de mim. Eu não poderia me arrepender do que tinha certeza. Não deveria desprezar o abraço dos que realmente estão aqui, dos que viriam correndo caso eu precisasse. Eu deveria saber encontrá-los. Eu não deveria estar chorando. Eu não poderia ter tantas incertezas. Não deveria me sentir tão só.
Mas essa dor não me deixa dormir.
Mas essa incerteza não me deixa em paz.
As palavras perderam o seu poder, sua força, seu peso. É preciso observar atentamente, meus caros, para conseguir notar. Confesso que custei-me em perceber. No entanto, como já era do meu feitio observar coisas pequenas, destas que pouco importa para alguém, notei que não necessariamente perderam seu real sentindo, mas passaram o mesmo para outras palavras, frases ou período.
Curioso é que quanto menos valor, mais noto tais expressões em uso. Ainda mais intrigante é que, em sua essência, elas possuem sim muita força, muito poder. Então, permiti-me um experimento. Tornei em silêncio esses sons tão usados, tão sem sabor; e mais, transformei em gestos, em olhares gritantes. A ausência de permitiu-me conhecer parte do seu brilho.
Não obstante, atentei-me dos mais queridos, para eles pouco importava os significados das letras aos outros, bastava o vazio, o silêncio a dois; falar com os olhos... e aquela ânsia por ouvir, aquela dor por esperar. Seus momentos, por si só, já eram poesia.
Pronome pessoal do caso reto da primeira pessoa do singular + pronome pessoal do caso oblíquo átono da segunda pessoa do singular + conjugação do verbo amar na primeira pessoa do singular no presente do indicativo.
Querida máquina, cá estou eu tentando imaginar o que lhe escrever. Não tenho muito pra contar... ou talvez tenha. Mas não acho que seja de muita relevância. Eu tenho tanto a transcrever, tantos sentimentos para mostrar. Nada que deva ser exatamente escrito, e sim transparecido.
Paro. Deleito-me em lembranças... e, depois, sonhos. Volto-me para si (ou pra mim), suspiro e encaro o rotineiro, esperançosa. Por que se eu espero, espero no Senhor.
Era ela; e estava de volta! Mais atenta e curiosa do que qualquer outra que já vi. Seus cabelos ondulados desgrenadamente presos, quase completamente soltos, pareciam uma moldura para o rosto. Eu gostava de como ela me insistia dizer, por pura curiosidade, uma bobagem qualquer que eu omitia. E eu omitia exatamente porque gostava.
- Anda, seu bobo! Não tem graça. Você prometeu que me diria, então pode ir falando - ela me implorou. Começou risonha; brincando. Mas terminou a frase querendo parecer brava comigo; não conseguiu exatamente, o que me fez rir. Carregava consigo o fardo de mulher formada, mas tinha o lado doce de criança.
- Um dia você vai saber. - disse tentando fazer com que ela continuasse com aquela cara de curiosa. Não consegui. Fez menção de que ia me dar uma bronca ao colocar as mão na cintura e bater o pé, mas não o fez.
Continuamos no nosso caminho. Sua voz, mesmo mudando frequentemente de tom, me alarmava; era uma bela melodia, mesmo com a sua insistência dizendo-me que é "tenebrosa". Entre um ou outro que aparecia para lhe cumprimentar, ela tinha uma feição diferente. Era estranho... ao mesmo tempo que seus olhos conseguiam perceber pequenos detalhes - mesmo com sua miopia - também ficavam dispersos, vagos, olhando para o nada, como se estivesse longe.
- E então, mais um feliz acaso, não é? - perguntei pra ela, tentando tirá-la do transe. Sempre funcionava.
- Ah, claro. O acaso é meio bipolar conosco, não é? Às vezes nosso amigo, às vezes faz o máximo pra não nos encontrarmos. - falou como se estivesse com a cabeça na terra o tempo todo, como se não tivesse ido para tão distante dentro da sua mente. Ela se dava bem com as palavras, era boa em argumentos. Tinha um ar de inteligência humilde. Falou sorrindo, quase saltitante. Mas era a pior hora...
Quando veio abraçar-me, foi quando percebi seus olhos. Percebi novamente, como da primeira vez. Aqueles olhos de cores estranhas. Inquietos e fundos. Olhos de ressaca...
- Querida Capitu. - disse-lhe enfim. Sabia o quanto ela amava esse apelido. Ele por si só conseguia lhe descrever boa parte.
Nota: esse diálogo não foi retirado do livro Dom Casmurro, é um resumo de diálogos reais e também a união de vários acontecimentos, coisas subentendidas. A Capitu dele só é "baseada" na do livro e ela tem esse apelido. Diálogo de minha autoria com algumas ajudas especiais.
Ela: quer me aturar um pouco?
Ele: estou disposto.
Ela: e aí, tudo bem?
Ele: tudo. Está triste?
Ela: só um pouco depressiva por estar carente nesse clima perfeito com músicas lindas tocando e vendo casais felizes - disse, mesmo sem ele podendo ver, com um riso tristonho.
Ele: acho que é mais ou menos como me sinto quando vejo minha amada. Às vezes não consigo reagir.
Ela: E eu queria ter alguém pra amar. Você já tem essa sorte e ainda mais por vê-la.
Ele: mas não é recíproco. (...) É verdade, só o fato de estar apaixonado já é melhor.
Ela: o problema é que eu já me acostumei com isso. Eu tenho necessidade de me sentir amada. De sentir carinhos e poder retribuir.
Ele: sou assim também. Hipercarente e carinhoso.
Ela: e essa é a época do ano mais aconchegante para isso. Mas meu problema é esperar um principe num cavalo branco (ou num uno azul, quem sabe)
Ele: bem, porque não pega o seu cross fox e vai buscar o seu plebeu, princesa?
Ela: o império foi derrubado, a cavalaria foi derrotada, o trono foi tomado. E a princesa virou uma simples camponesa.
Ele: melhor assim, agora vai saber quem são os moços camponeses de puro coração que vivem perto de você. Ou até mesmo de outro Reino.
Ela: meu reino foi visitado por vários outros e cada um destruiu parte do meu. Aprendi a ficar receosa com cada um que se aproxima demais. E os camponeses que passaram, se tornaram rebeldes, queriam descobrir o resto do mundo e não ficar num só reino.
Ele: há de aparecer um, que tenha o dom de reconstruir corações partidos e refazer laços e confiança, se dedicarão somente a essa tal camponesa de bela voz e olhos de ressaca.
Ela: eu digo o mesmo a você. Você é doce e merece uma princesa liberal. Enquanto isso, vou tentar acalmar meus ânimos. Sabe, é difícil sem ter um abraço e um sorriso só pra você.
Ele: estarei sempre aqui, não sou de largar as pessoas, sabe?
Ela: poxa, obrigada mesmo. Eu sei o quanto garota carente é chata.
Ele: não acho, me identifico, é bom saber que não estou sozinho.
- Eu estava sentindo falta disso - falou ao abraça-la -, me faz bem.
- Do quê? - seus olhos estranhamente mais claros do que de costume aquela noite piscaram para disfarçar as lágrimas de saudade.
- Da tua pele, de como você tenta não rir das minhas besteiras, de como sua mão passa pelo meu rosto.
- A escolha foi sua. E essa parte de mim permanece aqui ainda, congelada. Esperando algumas palavras para poder quebrar o gelo e voltar...
- Queria que ainda fosse cedo...
Não era uma vez, há muito tempo atrás, num lugar hostil, onde não era fácil manter a franja lisinha, onde havia muitas criaturas cruéis e até covardes como linces, piratas e ratos-cangurus. Era uma terra selvagem onde poucos conseguiriam viver sem perder sua sanidade mental. Lá vivia um lobo, que depois de mil anos reencontrou seu BFF, o furão cheio de artimanhas (ai sério), e sempre que se encontravam gostavam de ver um au-ki-mia (ou seja, um cachorro que quer ser gato).
Certa vez, o furão chamou o lobo para visitar novos lugares, onde as luzes tocam o chão (não, não era París). O furão ficou muito impressionado com a “Luz dos olhos” de um certo ornitorrinco que lá vivia, mas o lobo nem tanto. Eles continuaram a fazer essas viagens, mas o lobo só acompanhava o furão, pois ele era muito atrapalhado. Porém, certa vez o lobo passou a se sentir bem naquele lugar luminoso, talvez porque fosse um lugar neutro, que nada tinha a ver com o mundo de onde ele vinha, ou pelo menos era o que ele achava. Mas tudo estava interligado pela linha do raciocínio, até que ele percebeu que o que o fazia se sentir bem era o mesmo ornitorrinco que impressionou o furão. E enquanto o furão e toda a torcida do flamengo se preocupavam em morder uns aos outros, o lobo se preocupava com ela, a bela ornitorrinco.
Depois de um tempo, o furão e uma pequena fração da torcida do flamengo deixaram de se morder e partiram em outro caminho. O furão, por exemplo, foi a procura de uma tal de coala que já tinha visitado a cidade de muitas luzes e o furão, depois de um tempo, encontrou a perdida coala, e eles foram felizes para sempre, “mas isso é muito clichê” então: “... é só isso, não tem mais jeito, mas não acabou...”.
Sim, mas continuando... o lobo bem que continuou insistindo porque não é do feitio dos lobos desistirem na primeira derrota, nem na segunda, nem na terceira, nem na quarta, nem na quinta, nem na sexta, mas no sábado é irrelevante. Depois de algum tempo, o lobo “sentia vontade de ficar...”, porém entre “eu e você não era assim tão complicado, não era difícil perceber quem de nós dois ia dizer que é impossível o amor acontecer...”, mas “a gente se deu tão bem que o tempo sentiu inveja...”
Porque o ornitorrinco só tinha quinze mil anos, e o lobo tinha que viajar pra o Alabama? Porque em Aracaju ele ia ficar só, sozinho, mais solitário que um paulistano. Apesar de tudo, todos ainda se correspondiam pelo correio coruja.
Então: C#m E B F#
Bem, se você leu essa história, envie para 500.000.000.000 pessoas. Não deixe essa história morrer.
Para a ornitorrinco, do seu lobo preferido. Quandto ela, finalmente,
completou seus 16.000 anos,
que agora era tarde demais,